Androcentrismo: até onde vai a subjugação da mulher na linguagem?

Você é uma mulher. Acabou de adquirir um novo computador e passou um bom tempo para configurá-lo como seu. Enquanto preenchia todos os cadastros de configuração, você também provavelmente preencheu o seu gênero: feminino. Mesmo assim, toda vez que você liga seu computador, é surpreendida com a frase: Bem-vindo! Esse é o efeito do androcentrismo na linguagem.

Mas que termo é esse?

Andro = homem/masculino. O sociólogo brasileiro Robson Fernando tem uma boa explicação prática para o significado do termo:

“É a humanidade centrada na figura do homem, do humano macho”.

O androcentrismo já está enraizado nos diálogos da língua portuguesa no Brasil, uma vez que vivemos em uma sociedade patriarcal, que tem não somente a heteronormatividade como padrão, mas uma normatividade expressivamente masculina.

O “costume” patriarcal que levou ao androcentrismo na linguagem

Quando falamos sobre linguagens, não é preciso ir muito longe para notar a presença masculina dominante em ditos populares, religiosos, políticos e quaisquer outras falas em que se procura falar da raça humana como um todo.

É neste ponto que percebemos a subjugação do feminino: a norma culta da linguagem é que todos os plurais e generalizações sobre pessoas sejam feitas no masculino. E você provavelmente já se acostumou a ler, a ouvir e até mesmo a falar dessa maneira.

Toda essa cultura patriarcal é fruto de colonizações — na maioria das vezes, brutais — lideradas sempre por homens. A partir da colonização masculina (principalmente eurocêntrica) dominante, não só no Brasil como em outros países, as linguagens se moldaram privilegiando artigos, substantivos e palavras em geral, no masculino.

“Os homens são pecadores”, “o cão é o melhor amigo do homem” e “o homem é o lobo do próprio homem” são frases populares, e você já deve ter se deparado com pelo menos uma delas alguma vez na vida. Pensando em nossa sociedade atual, onde o movimento feminista vem tomando cada vez mais força nos últimos anos, é necessário que uma reflexão sobre o androcentrismo seja feita: como encaixar o gênero feminino na linguagem de maneira bilateral?

Como escrever de maneira neutra de verdade, sendo que, hoje, o neutro é o masculino?

Vamos pensar! Como não ser androcentrista?

Como UX Writer e mulher, aqui na Take me preocupo com a qualidade dos fluxos conversacionais que estamos criando e distribuindo ao mundo. Falando em um contexto digital atual, é quase parte de um manual invisível de boas práticas que o homem não seja o único representante da espécie humana, principalmente porque as interfaces conversacionais são utilizadas por ambos os gêneros.

O desafio principal está em criar fluxos de conversas que se adaptem a todos os gêneros e não sejam limitadores, proporcionando sempre a melhor experiência possível a quem usa. Porém, diante de todo o cenário androcêntrico e patriarcal, não é tarefa fácil produzir a tal “escrita sem gênero” (ou “escrita para todos os gêneros”).

Há também outro desafio que merece ser lembrado: mostrar a importância de desconstruir as linguagens androcêntricas. “Por que devo me importar, se já é a norma padrão?”

Os plurais são um exemplo de dificuldade ao escrevermos textos sem gênero. Como mais uma prova da visão androcêntrica, a norma culta é escrever no masculino sempre que os plurais contem com algum homem ou algum substantivo masculino.

Por exemplo: suponhamos que há numa sala de aula 12 mulheres e 1 homem. Seguindo a norma culta, a frase “a sala de aula tem 13 alunos” seria a mais utilizada, ainda que a sala tenha 12 vezes mais mulheres que homens.

Diante disso, para romper o padrão e desconstruir a visão patriarcal, uma série de pessoas adotaram como método de redação algumas substituições linguísticas que trocam as letras definidoras de gênero pela letra “x”, letra “e” ou pelo símbolo “@”. Esse tipo de grafia, porém, ainda não tem sido utilizada em textos profissionais e oficiais, pela incapacidade de leitura destes termos de alguns programas que leem arquivos para pessoas com deficiência visual.

Mas então, como escrever sem gênero e com qualidade?

As substituições serão suas melhores amigas. Sempre que estiver escrevendo e for necessário utilizar uma palavra que certamente teria gênero, você pode substituí-la por outra que tenha o significado semelhante, ainda que a sentença aumente de tamanho.

Exemplos:

“Você gostaria de falar com um atendente?” pode ser substituído por “Você deseja falar com o nosso atendimento?”

“Seja bem-vindo!” pode ser substituído por “Te damos as boas-vindas!”

Releia e revise sempre todo o seu conteúdo antes de publicar. Como já disse em todo o post, nossa sociedade está tão atrelada ao masculino que, muitas vezes, nos passa despercebido um parágrafo ou outro que conta com palavras que possuem gênero. Revisar seu conteúdo já é uma boa prática normalmente, então, agora, inclua na sua revisão uma atenção especial a possíveis termos com gêneros.

Questione-se sempre sobre quem ou a quê você se refere em seu texto. Essa dica parece básica a todas as pessoas que escrevem textos, né? Mas nesse caso, é de extrema importância que você saiba a quê ou quem está se referindo, para saber se a ortografia correta tem gênero ou não.

No fim das contas, o bom senso e a determinação de não fortalecer toda uma estrutura patriarcal já vão te dar o pontapé inicial para não limitar seus textos atribuindo gêneros as palavras deles. A humanidade é composta por muitos gêneros além do masculino, e só temos a ganhar ao incluir todos eles — não só na linguagem, mas ela já é um ótimo começo.


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Ana Luíza Lima

UX Writer na Take

 

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