A volta das mulheres na computação

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Como mulher desenvolvedora e inserida na área de tecnologia, você invariavelmente se acostumará a ter homens como grande maioria dos colegas de universidade e trabalho. Fala-se muito de Alan Turing, mas pouco de Grace Hopper e Ada Lovelace. Nos sentimos obrigadas a ser duas vezes melhores para termos metade do reconhecimento. Neste post, vamos falar um pouco sobre a história brilhante, mas muitas vezes esquecida, das mulheres na computação.
Pela área de TI ser um ambiente dominado por homens, não foram poucas as vezes que escutei formas de diminuição da mulher no ramo:

  • professores falando sobre reprovar alunas por serem muito bonitas e querer dar aula para elas por mais um semestre;
  • sugerir que as duplas não sejam de duas mulheres, pois é necessário um homem para balancear, caso contrário elas estariam em desvantagem;
  • ter meu conhecimento e ideias desmerecidas por acharem que sei menos;
  • ter um homem recebendo mais reconhecimento por projetos desenvolvidos por mulheres;
  • entre outros exemplos.

Em 2017, o então engenheiro da Google, James Damore, escreveu 10 páginas dizendo por que os incentivos à diversidade na área eram negativos e dizendo que mulheres eram biologicamente menos inclinadas a se interessarem pela área de computação. A Google o demitiu por considerar que seus ideais não eram compatíveis com os da empresa — mas a Google é uma exceção por se posicionar assim, pois não é algo comum na área.

Mulheres foram pioneiras na área de computação

Tudo isso mostra um retrato atual da área, mas essa é uma mudança recente – na verdade, as mulheres foram as primeiras engenheiras de software.
Em 1843, Ada Lovelace foi a primeira pessoa a desenvolver um algoritmo computacional da história. Inclusive, ela inspirou um chatbot criado para comunicação interna aqui na Take.
Hedy Lamarr era atriz e, em 1942, durante a Guerra Mundial II, patenteou um sistema de sinal com variador de frequência para evitar que torpedos controlados por rádio sejam interceptados, princípio usado hoje em tecnologias como o Bluetooth e versões anteriores de CDMA e Wi-Fi.
Em 1952, Grace Hopper foi a criadora da linguagem COBOL e, assim, popularizou a ideia de linguagem de programação orientada para o processamento de banco de dados usada até hoje.
Em 1958, Mary Kenneth Keller foi uma educadora e pioneira na área de tecnologia, além de ser a primeira mulher nos Estados Unidos a finalizar o PhD em Ciência da Computação.
Em 1969, Margaret Hamilton foi desenvolvedora e líder do time que desenvolveu os módulos lunares e de comando do sistema de voo da missão Apollo, recebendo a Medalha Presidencial da Liberdade por este feito, dada pelo então presidente americano Barack Obama.
Em 1978, Carol Shaw foi a primeira mulher a entrar no mercado de videogames, trabalhando na empresa pioneira em videogames Atari, e depois foi a responsável por criar o primeiro sistema de geração procedural de conteúdo, que nunca deixava uma fase de jogo ser igual à outra — prática que continua até hoje.
Em 2006, Frances Allen foi a primeira mulher a ganhar o prêmio Turing e foi responsável por alguns dos sistemas iniciais de segurança da National Security Agency (NSA).

Em 1960, a engenharia de software e o desenvolvimento eram considerados trabalhos femininos.

Contrastava com desenvolvimento de hardware, que era considerado trabalho masculino. Temos grandes marcos na história da presença das mulheres, como As Garotas do ENIAC (capa deste post). ENIAC (Electronic Numerical Integrator and Computer, ou em português, Computador Integrador Numérico Eletrônico) foi o primeiro computador eletrônico da história. Ocupava um andar inteiro da Universidade da Pensilvânia e era usado para calcular trajetórias de mísseis durante a segunda Guerra Mundial.
Inicialmente, um time composto por 80 mulheres era responsável por fazer as análises e cálculos. Com a construção do ENIAC, seis mulheres foram escolhidas para dar continuidade, programando a máquina tendo apenas seus diagramas lógicos. Como resultado, os cálculos que anteriormente levavam cerca de 30 horas começaram a ser processados em 15 segundos.

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Revista Cosmopolitan de 1967, um artigo sobre The Computer Girls, ou As Mulheres da Computação. Imagem via Hackernoon

A escolha do mercado de afastar mulheres da área

Em meados da década de 80, foi entendido que a venda de brinquedos é mais efetiva quando as propagandas são feitas para grupos mais direcionados. Nesse período, os videogames revolucionaram o mercado e, como eram considerados brinquedos, foi feita a escolha de que lado das lojas seriam vendidos – o lado dos meninos, e isso foi acatado pelo resto do mercado e centros de marketing.
Assim, computadores, videogames e jogos de lógica viraram “coisa de menino”. Garotas foram desincentivadas a se interessar pela área e quando mesmo assim se interessaram, existia a hostilidade da comunidade. A imagem do estereótipo do programador e entusiasta de tecnologia como um rapaz jovem e nerd, como foi fortificado por filmes da época, fazendo com que nós não nos sentíssemos pertencentes.
Com isso, a presença de mulheres no mercado na área de tecnologia diminuiu de 50% para 37%, e a quantidade de mulheres cursando graduação do campo da Ciência da Computação começou a diminuir drasticamente, ainda mais se comparado ao grande crescimento em outras áreas de conhecimento, como Direito e Medicina.

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“Por que as mulheres ‘desapareceram’ dos cursos de computação?”. Imagem via Jornal da USP

Mulheres na computação: o retorno

Hoje, vemos cada vez mais movimentos de mulheres no ramo da computação e, com isso, o surgimento de vários grupos que se unindo, apoiando e incentivando. Voltamos a ter um pouco mais de presença feminina no mercado e no meio acadêmico, e estamos sendo cada vez mais encorajadas a permanecer na área. Alguns exemplos são:

  • Python vem se tornando uma linguagem forte e procurada no mercado, principalmente devido ao crescimento do interesse em aprendizado de máquina e big data. PyLadies é um grupo que oferece networking e suporte a mulheres na área para todos os níveis de conhecimento. Existem vários meetups pelo Brasil todo.
  • Não podemos também só comentar sobre a diferença entre homens e mulheres e esquecer-nos de como o desmerecimento acadêmico e no ambiente do trabalho é ainda mais forte quando falamos de mulheres negras. Black Girls Code é um grupo baseado nos Estados Unidos que faz eventos como hackathons e exposições de conhecimento, além de cursos onlines de valores de até 35 dólares, e às vezes até gratuitos.
  • Mind the Gap é um programa da Google que visa colocar garotas no Ensino Médio e Fundamental em contato com mulheres na universidade na área de tecnologia. Em 2018, em parceria com o Departamento de Ciência da Computação da UFMG, aconteceu o 2º Encontro Nacional Mind the Gap na UFMG, e tive a honra de apresentar e, junto com outras colegas, mostrar nossas pesquisas na área.
  • GSG – Girls Support Girls é um grupo fundado na UFMG por alunas da área de computação e preza pelo compartilhamento de conhecimento, troca de experiências e apoio. Após os eventos técnicos, costumam fazer coffee breaks menos formais nos quais todo assunto pode ser discutido.
  • por fim, também não posso deixar de falar de um grande orgulho que foi a I Escola de Férias Take. Feito e organizado por mulheres aqui da empresa, a primeira edição teve conteúdos introdutórios sobre Design, Inteligência Artificial, Programação e Segurança, e todos os temas foram apresentados por algumas das incríveis mulheres que temos aqui. Foi voltado exclusivamente para as mulheres, com o intuito de fortalecer a presença feminina na tecnologia.

Temos ainda muito a evoluir, mudar e nos esforçar, mas sei que estamos no caminho certo 🙂
 

Capa: Programadoras do ENIAC. Imagem via TechDicas.
Referências: CIO, Hackernoon, Recode

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Tatiana Camelo
Desenvolvedora na Take
 

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